Minha mãe dizia que, quando eu era criança eu questionava tudo.
"Por que é desse jeito que funciona?"
"Por que eu tenho que fazer dever de casa?"
"Por que eu tenho que dormir cedo?"
Algumas coisas eu entendi, outras não.
Mas hoje as perguntas são outras. Muito piores dos que as que eu fazia.
Antes era só curiosidade, tentar entender mesmo. Ou então birra, charminho.
Hoje é revolta.
Eu olho ao meu redor e - que me desculpem os patriotas - mas muitas vezes tenho vergonha desse país. Ainda mais porque vejo os efeitos em mim diretamente. Tudo que dizem os economistas, os estudiosos, os marketeiros... Eu tô descobrindo é na vida.
Eu sou o que alguns setores aqui no Brasil chamarão de minoria, apesar de eu ser parte da maioria em todos os sentidos.
Sou mulher, pobre e latina.
Latina talvez seja o de menos no Brasil, mas mulher e pobre é complicado.
Não que eu não goste de ser mulher! Claro que eu gosto - viu Júlio??? Apesar de ter gastar dinheiro com absorvente e não poder entrar alguns dias do mês na piscina, não chega a me entristecer.
Mas ser pobre... Meu filho, ser pobre - NO BRASIL, mais especificamente - é dose.
Eu vejo a exclusão social. Eu sinto. Ela me força a desistir, tenta parar meus sonhos, tenta ditar limites. Tudo sutilmente, pois sua tática não é tirar algo de mim, e sim não permitir que eu tenha. E por mais que eu cisme que ela está errada, ela é como uma socialite: esbanja o exagero pelos poros, passa e finge que não vê. Enquanto eu, na simplicidade do que tenho, sou obrigada a conviver com ela tentando cortar minhas asas.
Sei que tem gente em pior situação... Mas não reclamo só por mim. Reclamo por todos aqueles que, apesar de serem considerados minoria, são a imensa e esmagadora maioria.
Talvez porque sofrer sozinho dá menos vontade de continuar. Por isso às vezes você olha ao redor e só vê gigantes. Uns fantasiados, é verdade. Mas é só isso mesmo que eles que querem que você veja.
Desculpe o texto filosófico. A minha raiva é uma grandeza inversamente proporcional à minha clareza. Quanto mais raiva eu tenho, menos óbvia eu fico.
Mania de poeta - e a exclusão não vai me tirar o prazer de achar que sou poeta. Por que não? Por que agora tem curso pra poeta também? Aff.
Procuro um estágio. Não pra matar o ócio - aliás, tadinho, eu até gostaria, no fundo, de conservá-lo vivo, mas já dei a sentença.
Também não é capricho: "Eba, um estágio! Vou mostrar pra mamãe e pro papai que agora eu tenho um! Eu agora sou livre!"
Definitivamente não.
O estágio é questão de sobrevivência. é pros cursos, pro tratamento dentário - antes que os meus cisos empurrem meus dentes a ponto de virarem meus caninos -, pra ajudar nas despesas, pra eu casar... Enfim.
Mas como é difícil.
Entro na sala, aquela tensão. Ri da situação. Todo mundo nervoso, meio que coim raiva um do outro por não estar sozinho naquela seleção de estagiários. Uma espécie de Big Brother, todo mundo quer ser simpático mas ninguém que perder o prêmio.
Redação. Bosta, o diferencial das melhores empresas na competitividade de mercado. Sei lá o que é isso. Odeio essas fórmulas bossais que se aprendem em cursos de marketing pessoal.
Falei o que acho. O diferencial é ter visão, as fórmulas mudam. A diferença é arranjar soluções criativas pra problemas comuns. E é isso, simplesmente. Isso não é fórmula, isso é simplesmente visão, planejamento, criatividade.
Cada um fala de si. "Estou na segunda faculdade, estagio numa empresa suiça, tenho inglês mega-master-fluente, estudo na faculdade mais cara do rio - e meu pai paga aqueles 2mil contos todo o mês, tenho curso de como sorrir, como me vestir, com falar, como me sentar, enfim, sou um robozinho cheio do dinheiro e vim atrás de um estágio."
Ai, me desculpe. talvez não seja tanto assim mas estou tão chateada que tenho que desabafar.
E você? - olharam pra mim.
Sou bolsista, tenho 18 anos, aprendi o pouco que sei sozinha porque meus pais não têm dinheiro pra me encher de cursos, e... sou esforçada?
Risos dentro da minha cabeça. Caramba. Meu Jesus Amado, HELP.
COMO posso competir com gente rica??? Tem como??? Eu sou só uma pobre CDF que conseguiu uma bolsa, graças a Deus, Senhor obrigado porque uma faculdade eu faço.
Mas... Não tenho condições financeiras de ter tantos cursos.
Se eu tivesse dinheiro... Ai se eu tivesse....
Terminaria o curso de inglês, faria todos que pudesse de informática, não gastaria duras 2 horas de viagem pra chegar na faculdade.
Mas pra alguns, estranho, isso não é nada.
Quando vemos a oportunidade de ser alguém, a exclusão social diz: lembre-se que você é pobre, nunca vai estar entre os melhores.
O ânimo não é dos melhores depois disso.
Eu só quero uma chance.
Ah, mas eu vou conseguir. Vou dar na cara dela, safada.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
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